ACANAC 2007 - Did anyone asked the boy?




Diz o povo que o que nasceu torto, torto morre.

Talvez seja uma visão demasiado derrotista mas não deixa de ter um fundo de razão. E às vezes, por maior que seja o esforço e as sinergias que sejamos capazes de gerar, fica-se sempre aquém de um nível que poderia ser atingido se se partisse de uma base mais sólida, mais consistente...

Falar do ROVER é falar da vitória da persistência, do sucesso de acreditar até ao fim, é falar da riqueza de crescer na partilha das alegrias e dificuldades...
Sem dúvida que foi uma actividade marcante nas nossas vidas, creio, que de uma forma geral, pela positiva. Foi notória a capacidade de as pessoas aderirem a um projecto que desde início se pretendia que fosse deles, para eles... Isto é o escutismo... é aprender fazendo... e para quem fez, decerto que aprendeu imenso e se tornou mais rico. Estas experiências valem acima de tudo por isso, por aquilo que nos dão, na medida do que damos... Também pelo convívio, pela troca de experiências,... mas acima de tudo por esta partilha de nós mesmos. Acho que esta, foi conseguida e bem conseguida, graças a todos os que lá estiveram.

É quando falamos do "Ask the Boy" que as coisas vão ter ao ditado popular de início...
Quando as coisas começaram a nascer, os ecos que chegavam do Nacional é de um "Ask the Boy" em que a pergunta só tem a resposta que à partida alguém definiu ser aquela que se pretendia que o boy desse...
É óbvio, que com esta forma de pensar, depressa se esquece o rapaz, e este, que devia estar no centro de tudo, à volta do qual pedagogias, orgânicas, logísticas, dinamizações,... deviam girar, passa a ser um peão na amálgama confusão de prioridades que se definem sem se ter noção do essencial.
Fazem-se jogos do centenário, não para valorizar as pessoas e para que elas cresçam, mas para definir o número que a logística comporta... Estabelecem-se inscrições não para responsabilizar as pessoas mas para garantir pagamentos...
E por aí fora...
Quando tomei conhecimento mais aprofundadamente com o Nacional, percebi que havia já uma onda contrária reflectida nestes limites do razoável e que procurava demarcar-se desta crista do faz, organiza e acontece, para uma do prepara, joga e cresce... muito mais próxima do rapaz.
Desde então, e desde que acabei por me envolver a fundo no Nacional, que travámos (eu e aqueles que rodearam esta equipa fantástica que tornou o ROVER possível) uma luta incessante contra este espírito organizacional para tudo.
E podem vir dizer que as coisas hoje já não são como antigamente... que estas actividades requerem meios pesados, do ponto de vista contratual, orçamental,... mas o problema não está nos meios, no número, no tamanho... mas está sim na sua importância, no que fazemos com eles e de como os enquadramos na nossa forma de agir. E isto, de todo, não pode condicionar o que o rapaz quer fazer, ou o que o rapaz espera que possa ser possível realizar...
Dia após dia, semana após semana, víamo-nos confrontados com esta incoerência de esquecer o rapaz mas reencontrar mais contratos, mais serviços que muito pouco iam ao encontro de outras coisas que considerávamos básicas... tão básicas como a água, por exemplo...
E é estúpido verificar que tivémos uma rede sem fios que chegava lá por fibra óptica, que tivémos um centro da PT a distribuir tudo e mais alguma coisa (eu não sei bem... era tão necessário que eu nem lá fui), bares fantásticos que não deixavam acabar a cerveja fresquinha, uma porrada de t-shirt's de marca,... mas não fomos capazes de arranjar forma de distribuir a alimentação adequada, a horas e em quantidade, ter um bar que servisse água fresca (quando tinha água), ter possibilidade de tomar um banho ao fim de um dia de trabalho cheio de pó e de calor... e por aí fora...
De que adianta lançar grandes publicidades na internet ao Nacional, ao Campo de Idanha, ao jogo do centenário, insistir na qualidade das nossas actividades, no tempo de preparação, se não somos capazes de cumprir prazos?... Se uma lista de isncrições que deveria sair com 6 meses de antecedência, sai apenas com um mês? Já para não falar de uma coisa tão simples como mandar uma porra de um mail com os contactos dos participantes para que se pudesse organizar da melhor forma a preparação da actividade...
E isto porque se perde tempo, a dar importância a coisas tão insignificantes num acampamento de escuteiros, como os reclamos de publicidade mas não se tem a preocupação de como se consegue com uma carrinha, fazer chegar a horas uma mísera refeição que tem de ser distribuída em 10 locais diferentes a 1000 caminheiros num percurso de mais de 60 kms.
Na altura, já é dificil de resolver estas gafes... Agora já não vai a tempo... Nem tão pouco adianta andar à procura de culpados... A solução começa em todos nós e no esforço que podemos fazer para que estas coisas não se repitam...
É tão fácil quanto isto arranjar uma forma de que as coisas corram pelo melhor... O escutismo é do rapaz... é nele que as cabeças todas que pensam e orientam o escutismo se devem concentrar.
A actividade que foi mais louvada no ROVER, talvez possa não ter sido a melhor, mas aquela que gerou mais consenso e motivou e criou um verdadeiro espírito fraterno entre todos foi a Blogosfeira. Foi a actividade do rapaz! - com as ideias do rapaz, os meios do rapaz, a participação do rapaz...
Quando tiramos o objectivo educativo, que é formador e formado ao mesmo tempo, do centro da nossa atenção, perdemo-nos do que andamos a fazer a vaguear por orgânicas, e eventos, e fogo de vista... já o fogo do Fogo de Conselho, esse, teve de faltar...

É neste tempo de avaliação que se devem trazer as nossas alegrias, mas também as nossas preocupações.
Partilhar as nossas alegrias motiva-nos a continuar a fazer caminho... a trabalhar neste projecto de descendência legado a Abraão. São momentos que guardamos no coração e que têm um rosto ou até mais, que têm um nome e que temos esperança de um dia encontrar de novo.
Mas também alertar para as preocupações, deve-nos fazer sentir responsáveis e construtivos para um melhor escutismo. 100 anos de vida é já muito tempo, por um lado, mas é também a expressão de que a jovialidade tem uma continuidade, que o espírito que nos anima se alimenta deste pão que é aprender fazendo... Avaliar é tomar o seu sabor, pesar o seu sal e afinar continuamente o gosto com que o saboreamos nas nossas vidas.
Dos sonhos que nos assaltam a mente, podemos e devemos agarrar aquele que nos poderá trazer e por arrasto, aos outros também, maior felicidade. Não é uma ousadia vã! É apenas OUSAR SER MAIS do que fomos!

photo: emlino 2007
(abraço para o Sérgio que está na foto)

4 comments:

At segunda-feira, 27 agosto, 2007 Pantera Ágil said...

De facto o que cada vez mais falta no escutismo é por em prático a "Ask the boy" pilar essencial do escutismo. Quando é que os dirigentes vão, de uma vez por todas, perceber que o "rapaz" é o centro de tudo e a razão de ser do escutismo?!

 
At quinta-feira, 30 agosto, 2007 Tiago Almeida said...

Seria bom que houvesse avaliações a sério aos ACANACs. Não digo avaliações para achar 'cullpados' do que correr mal, acho que isso não interessa - os males estão feitos, todos os chefes deram o seu tempo livre e férias para trabalhar e não merecem ser alvos de 'caças às bruxas'.

O importante seria avaliar para encontrar soluções para nos próximos ACANACs não se cometerem os mesmos erros. Digo ACANACs mas todos os dirigentes poderiam aprender algo dessas avaliações e aplicar quer em actividades regionais e de agrupamento.

Vai-se dizer que os jovens gostaram do acampamento - claro que gostaram, conheceram pessoas novas, fizeram amizades. Ainda para mais quanto na face das adversidades mais união surgiu.
Mas esta justificação tem lógica? Então sabotemos o mais possível os acampamentos, para os escuteiros se unirem mais, fazerem laços e amizades mais fortes! :)

Porém a política de varrer debaixo do tapete continua a vigorar, e no próximo ACANAC os mesmos erros reaparecem, porque ninguém teve a coragem de fazer as avaliações necessárias - é vergonhoso e um desrespeito para com os jovens que o CNE tem à sua tutela.

Prefere-se esconder os erros, passando uma realidade falsa lavada pela Flor de Lis e os outros meios oficiais, ao invés de zelar pelo bem estar dos jovens.

 
At terça-feira, 04 setembro, 2007 CastorPioneiro said...

...Quando perceberem que estão no escutismo para servir e não para se servirem......

 
At terça-feira, 04 setembro, 2007 CastorPioneiro said...

Pois Tiago, avaliações que não sejam um mero formalismo mas uma vontade própria de crescer, de melhorar...
Sabes, alguns não devem ter sido lobitos ou depressa se esqueceram do ser sempre melhores, melhores, melhores, melhores... Quando B.P. falava de deixar o mundo melhor não se referia apenas ao mundo físico... mas em todas as suas dimensões... o mundo pessoal, o mundo mental... etc. E só se pode evoluir quando se põe na balança o que é bom e o que é menos bom (pedagogicamente falando).
Pelo menos que nós saibamos fazer a nossa avaliação pessoal e saibamos agir em consonância nos 'mundos' que estão ao nosso alcance; batalharmos por essa forma de estar na vida em que acreditamos para que aqueles que nos rodeiam, sintam essa diferença de ser escuteiro; na esperança, sempre, de que um dia caminharemos para uma aplicação do método que não nos ensina a cumprir etapas, mas que vivendo essas etapas nos ajuda a CRESCER e a SER +.
Obrigado pelo teu comentário (que gostei e no qual me revejo também) e volta sempre que quiseres. :)

 

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