'Eco's do dia de B.P.

Baden Powell, quando semeou o escutismo, fê-lo, precisamente, onde ele teria condições para se desenvolver espontâneamente: bem no seio da natureza. Brownsea, seria certamente um local onde isso acontecia, mas mesmo mais do que isso, um símbolo dessa natureza protegida por uma barreira natural que é o rio.Daí, que falar em ambiente, em ecosistemas... no dia em que se celebra o seu nascimento, é uma forma perfeitamente aceitável para recordar a sua vida e a grande causa que a animou ao longo dos seus 87 anos de vida.O mote deixado no passado dia 22 foi uma imagem sobejamente conhecida do Escutismo para rapazes, que motivou diversos trabalhos passando pelos lobitos, exploradores e caminheiros.


«Evocando mais um aniversário do nascimento do fundador, o tema proposto (a nível de Agrupamento) para as celebrações deste ano foi o ambiente. E enquanto as outras secções se centraram em temas como a reciclagem e o aproveitamento de recursos, o Clã optou por algo mais adequado à sua faixa etária: ‘desenvolvimento sustentável e energias renováveis’. Para isso seguimos em visita às explorações de caulino em Barqueiros (Barcelos) [foto>] e à central marmotriz de Aguçadoura (ainda em fase embrionária) [foto>], e fizemos ainda referência aos campos masseira.
O caulino é uma espécie de barro fino, que se extrai do subsolo a poucos metros de profundidade, muito apreciado no fabrico de porcelanas, e por isso com algum valor de mercado. Na zona podemos encontrar numerosos terrenos de exploração, de variadas dimensões. E falando em caulino, vem imediatamente à memória (pelo menos dos mais velhos) os incidentes ocorridos neste mesmo local há quase duas décadas, à data largamente noticiados na comunicação social. Relembrando o que então aconteceu: as prospecções descobriram que a concentração de caulino era especialmente elevada no centro da localidade, nos terrenos onde fica a igreja, tornando particularmente apetecível a sua exploração. A empresa concorreu ao negócio e convenceu a Câmara, que assim autorizou o avanço das máquinas de demolição. Mas a população insurgiu-se, em defesa dos seus lares, da sua vila e da sua igreja. No dia em que se deveria proceder à demolição, a população juntou-se no meio da estrada e barrou intencionalmente a passagem dos bulldozers, além de terem começado a arremessar as pedras da calçada no intuito de os dissuadir de vez. Dos confrontos com a GNR, que teve de aparecer para sossegar os ânimos, resultou um morto, e depois da polémica assim acirrada a decisão acabou por ser revertida: não chegou a haver demolição alguma. Agora, com nova adjudicação polémica, corre-se o risco de tudo acontecer outra vez.
Este caso (e muitos outros se poderiam arranjar partindo por aí fora …) é justamente um bom exemplo do que não é desenvolvimento sustentável. Destrói-se a vila, escorraçam-se as pessoas … para explorar um minério não-renovável, que passados poucos anos se esgota no local. E depois? O caulino acaba-se, a empresa procura mais verdes pastagens, os empregos desaparecem, o terreno fica desfigurado e inaproveitável e torna-se impossível restabelecer a vida anterior. É um bom negócio, sem dúvida, pelo menos durante alguns anos. Mas não é certamente desenvolvimento.
O desenvolvimento sustentável é aquele cuja finalidade é a satisfação das necessidades do presente, mas sem comprometer as necessidades futuras, impondo limites e regras na utilização dos recursos por forma a não degradar o ambiente nem provocar o seu esgotamento. Quando a qualidade e a sustentabilidade não estão garantidas nem se deveria falar de desenvolvimento. Alcançar o desenvolvimento sustentável não significa deixar de crescer, mas crescer melhor. O que só se consegue com medidas concretas que alterem a forma como se utilizam os recursos e como se aproveitam as oportunidades.
O caso do caulino é exemplo de como o predadorismo do lucro fácil veio invadir a vida tranquila de uma comunidade há muito instalada. Mas é também muito frequente o inverso, ou seja, serem as habitações a invadirem o que não devem – terrenos protegidos ou zonas onde a construção não é viável nem sustentável.
A costa da Apúlia, aqui bem perto, é disso um bom exemplo … nem é preciso falar da costa algarvia. Em tempos bem recentes proliferaram todo o tipo de habitações (incluindo gigantescas torres) ao longo da costa, dunas adentro, muitas coladas ao mar. E o loteamento selvagem onde antes era pinhal praticamente eliminou o verde num sítio outrora densamente arborizado. Casas junto ao mar … tão românticas … e tão instáveis! Passado algum tempo, muitas vezes em vida dos proprietários originais, o mar erode a costa, e com ela os alicerces da casa e a própria casa em seguida. E depois todos clamam ‘aqui d’El Rei’, exigindo ‘indemnizações’ e ‘soluções’. Porque não pensaram nisso antes?
Também o caso das recentes inundações na AM de Lisboa tem muito que ver com isto. A chuva nem sequer foi muita e não durou mais de um dia. A diferença é que a construção e o asfalto por todo o lado não deixam espaço para o solo absorver a água que cai. Mas a água tem de escorrer por algum lado. E aí vai ela, pelas nossas estradas a dentro, alagando pelo caminho os nossos passeios, os nossos carros, os nossos estabelecimentos e as nossas casas. Um bom exemplo de um estrago causado exclusivamente pelo Homem. Ambos os casos são bons exemplos de desenvolvimento insustentável.
O que podemos fazer? Muita coisa. A começar pelas energias renováveis. A maior utilização de energias a partir de fontes renováveis – sol, água, vento, biomassa, geotérmica, etc., em conjunto com uma maior eficiência energética reduziria os níveis de consumo das fontes tradicionais, com a consequente redução das emissões poluentes e dos impactos ambientais, rumo à sustentabilidade das actividades humanas.Outro exemplo é o boicote das iniciativas que agridem o ambiente. Se deixássemos de comprar estas casas, certamente que deixaria de haver interesse em construí-las. E o leque de aplicação deste princípio é vasto.
É certo que não nos compete a nós, individualmente, mudar o mundo. Mas podemos deixá-lo um pouco melhor do que o que encontramos, com atitudes concretas: por exemplo, instalar painéis solares lá em casa, ou aero-turbinas mínimas, que até permitem introduzir o excesso não-consumido na rede eléctrica nacional e receber por watt transferido …Graças à biomassa (aproveitamento de restos animais e vegetais para gerar energia), há quintas que são energeticamente auto-suficientes. Etc., etc., etc.
Como B.P. já nos ensinava na altura, vivemos em fino equilíbrio com a Natureza. Nós, os restantes animais, as plantas, os rios, toda a vida e paisagem na Terra formamos um só elemento, o Ecossistema Terra. Cabe-nos a nós não estragar a nossa própria casa comum.


Alguns comentários...
“Todos, sem excepção, afirmam que é urgente proteger o ambiente, alterando muitas práticas … mas porque não dar o passo seguinte e mudar alguma coisa de facto? Pode começar com coisas tão simples e perfeitamente ao nosso alcance, como acordar um pouco mais cedo que o habitual e ir a pé para o trabalho … para não falar das deslocações de automóvel inúteis que fazemos tantas vezes! Protegemos o ambiente, evitamos stresses e ainda cuidamos da nossa saúde!” Teresa Lino
“Por vezes, as pessoas até tem vontade de fazer alguma coisa, mas tornam-lhes a tarefa muito difícil. Como no meu caso, que tenho os ecopontos muito longe de casa, e torna-se muito pouco prático separar o lixo … se resolvessem estas situações mais pessoas poderiam contribuir para melhorar o ambiente” Cati
“O petróleo também tem muitas vantagens – aliás, é por isso que é utilizado em quase tudo. Não se pode diabolizar tudo o que é ‘energia tradicional’ e endeusar tudo o que é ‘verde’, como muitas vezes fazem os ambientalistas” Filipe
“É preciso ter cuidado com muitos ambientalistas pouco sérios que não raras vezes estão envolvidos numa lógica anti-económica e mesmo anti-social. E também com exemplos de parques eólicos que invadem zonas protegidas e desfiguram a paisagem, criando exactamente o mesmo tipo de pressões de negócio que as ‘energias sujas’ mas que ninguém quer tratar como tal” Pedro
“Consumimos e desperdiçamos tanta coisa de que não necessitamos verdadeiramente … um exemplo simples é a quantidade de sacos de plástico que trazemos do supermercado: se cada pessoa usasse apenas um saco, ou até o trouxesse de casa, a poupança seria brutal. E é impressionante a quantidade de pequenas coisas que podemos fazer e que, afinal, fazem toda a diferença” Bruno
“A força das ondas não serve só para destruir, mas também para iluminar e aquecer as nossas casas. Assim também tudo – incluindo nós próprios e os nossos talentos; tudo pode ser aproveitado em nosso benefício e sem prejudicar a Natureza” Tomé
“A protecção do ambiente tem de se fazer com mais medidas concretas e menos colóquios. Se pretendem que as pessoas comprem carros híbridos, dêem-lhes o incentivo – criem-se tarifas sobre o carbono e/ou deduções fiscais sobre os veículos limpos. Querem menos automóveis nas cidades? Criem um sistema de transportes públicos eficiente, barato, complementar entre si e de acesso universal – coisa que não acontece, por exemplo, no percurso Póvoa-Porto, com um metro lento e um péssimo serviço de autocarros” Pedro
“Renovar não faz parte do futuro mas sim do presente. Por isso devemos começar já!” Cati
“Dar o exemplo, ser diferente e liderar a mudança – temas abordados no último Bivaque de Guias do Agrupamento – também passa por aqui” Samuel
“Tal como, em termos ambientais, os pequenos desequilíbrios se juntam aos grandes e degradam a situação, também as boas práticas individuais, se imitadas, transformam-se em grandes soluções para os problemas” Samuel

“Um pequeno esforço hoje faz uma grande diferença amanhã!” Excerto de um conhecido anúncio televisivo»

Clã 2 de S. Domingos

image: Scoutimage

1 comments:

At terça-feira, 11 março, 2008 Pantera Ágil said...

Desenvolvimento sustentável, ambiente, progresso,... cada vez mais são termos associados e em constante divulgação, discussão,...

O Homem esquece-se que na Natureza tudo tem o seu papel, a sua tarefa, a sua FUNÇÃO. É um SISTEMA DE PATRULHAS na sua perfeição extrema. Quando se altera alguma destas tarefas, a Natureza ressente-se e descontrola-se porque um dos seus ELEMENTOS não consegue mais cumprir a sua FUNÇÃO porque o Homem a impossibilitou. E, pior que isso, normalmente as soluções do "desenrasca" são mais prejudiciais do que as próprias acções.

É importante deixarmos de ter a ganância do querer cada vez mais sem olhar a meios e ponderar muito bem todos os atentados à Mãe Natureza. Se alguns são necessário e, irremediavelmente, terão de ser compensados, outros há que são de uma inutilidade extrema....

É importante garantir a sustentabilidade do Planeta e a sua permanente habitabilidade.

 

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